Acessibilidade: Mais profissionalismo e empatia, menos aparências

Acessibilidade: Mais profissionalismo e empatia, menos aparências

No que se refere à acessibilidade, existe um grande buraco entre o discurso e a prática da maior parte das empresas e das pessoas que se dizem socialmente responsáveis ou empáticas no Brasil de hoje.

Descrição da imagem: Quatro rostos fora de foco ocupam uma tela. Embaixo da tela, em fundo preto, duas imagens da mesma tradutora de libras sobrepostas, sobre fundo lilás. Uma onda sonora e mais três imagens sobrepostas da tradutora de libras em tamanhos diferentes.

E isso pode trazer problemas futuros para elas. Mais cedo ou mais tarde, com o avanço das tecnologias e a cada vez maior participação das pessoas com deficiência em todas as esferas da vida pública, os cidadãos e consumidores com deficiência – e o seu círculo familiar e de amigos – vão perceber o hiato entre o dizer e o fazer. E poderão criticar isto.

Uma coisa é se apresentar como empresa socialmente responsável ligada à causa da acessibilidade. Outra é praticar isto, antes de tudo internamente.

Não basta uma empresa dizer “sim, apoiamos as pessoas com deficiência. Todo o final de ano ajudamos uma entidade a fazer um evento para arrecadar fundos e, inclusive, nossos funcionários fazem trabalho voluntário lá”.

Claro que este tipo de ação é relevante e indica que a empresa e seus colaboradores têm vínculos com a comunidade. Mas, será que a empresa não se mostraria tão ou mais empática se em todo e qualquer vídeo – de propaganda ou treinamento – que distribuísse com a sua logomarca, inserisse simples legendas em português, para que milhões de pessoas surdas pudessem ter acesso ao conteúdo?

E será que aquele profissional de comunicação, que “tem amigos cegos no facebook”, quando posta as suas fotos, se preocupa em descrever as imagens, para que as pessoas cegas possam compartilhar efetivamente daquela experiência?

O discurso e a prática da acessibilidade

Durante a pandemia, o descompasso entre o discurso e a prática – causado quase sempre por falta de conhecimento técnico especializado, de simples informação e preparação – ficou mais evidente.

São comuns as lives em que artistas ou empresas usam “gambiarras” tecnológicas para promover a audiodescrição, que acabam se tornando tão complexas quanto desgastantes e inúteis. Quer que as pessoas cegas acessem a sua live? Simplesmente se autodescreva: a cor da sua pele, o cabelo, como está vestido e posicionado e como é o ambiente. Isso não é complexo e nem leva muito tempo. Basta uma breve conversa entre os participantes no início da live. Assim você estará sendo honesto e empático. E será muito melhor com a consultoria (consultoria, neste caso, significa conversa com breves instruções) com um usuário cego ou com baixa visão.

Também são comuns as lives com o tradutor e intérprete de libras exposto em um tamanho inadequado, tão pequeno que o seu trabalho de sinalização não pode ser visto ou entendido. Ou às vezes ao lado de um QR code ou com cores que não favorecem a visibilidade.

Como ter o público com deficiência visual ou auditiva na audiência?

Praticar a acessibilidade sem conhecimento técnico pode ser simplesmente inútil – caro e improdutivo. A empresa, ou o evento, fez convites e chamadas acessíveis? Se não, como espera ter o público com deficiência visual ou auditiva na audiência?

A falta de conhecimento técnico, inclusive de grande parte dos profissionais da indústria audiovisual, também ficou explícita durante a recente propaganda eleitoral gratuita. Por conta dos diferentes parâmetros usados pelas emissoras que transmitiam os programas, muitos deles – embora tivessem o conteúdo – eram exibidos sem audiodescrição, o que gerou muitas ações judiciais nos tribunais eleitorais. A maioria desnecessária, fruto da falta de empatia e vontade de aprender dos profissionais, empresas produtoras e emissoras.

A tecnologia existe, as leis existem, bons profissionais existem e o público com deficiência visual e auditiva está à espera de acessibilidade tratada com profissionalismo e empatia, e não apenas como obrigação legal.

Por Chico Faganello, produtor de acessibilidade audiovisual



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